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Que Louco Seria… – Dom. 29/06

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Esse dia foi definitivamente diferente. Estive na capital do Rio Grande do Sul (estado onde resido), para uma entrevista de emprego (que finalmente, deu certo), e encontrei um nigeriano pedindo informações para chegar até o estádio da Copa. Ninguém o entendia, pois falava em inglês. Ajudei da melhor forma que podia. O encaminhei até uma lotação que o deixaria em frente ao estádio. Mostrei quanto ele gastaria. Instruí-o a não mostrar o dinheiro em público, pedi para o motorista para ajudá-lo. E desejei boa sorte ao estrangeiro. Ele antes de embarcar, colocou suas mãos em minha cabeça, fechou os olhos e começou falar algo que eu não entendi, pois não era inglês. Mas reconheci a palavra Alá. Ele estava me abençoando! Colocou suas mãos em meu rosto e agradeceu. Entrou na lotação e não parou de acenar, até o veículo sair dali. E dali também saí eu…com lágrimas nos olhos.

Naquele dia, também jogavam Uruguai e Itália. Queria achar um bar para assistir o jogo. Depois do episódio nigeriano me encaminhei para uma conhecida rua do Centro da capital, em busca de um bar. Foi quando me vi envolvido por uma turba de argentinos fardados e muito animados. Cantavam alto, e pulavam. Me reconheceram como brasileiro, me abraçaram e me levaram, pulando e cantando. Eu só pulava, pois não entendia a letra da música que cantavam, embora reconhecesse os nomes Maradona e Pelé…sabia que era uma música provocativa, mas a provocação terminava na música. Tudo o que eles queriam era festa. E assim, festejando, eles me levaram quase de arrasto. Mas foi a primeira vez em minha vida que fui arrastado e gostei. Pois os braços não me puxavam…me abraçavam!

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E então chegamos…a um bar! Eles acabaram me levando, sem saber, para o exato lugar que eu queria ir. Lá, mais argentinos esperavam. O encontro entre eles foi algo de emocionante. Assistimos juntos o jogo. E pasmem: eles torceram para os uruguaios. Por conta de minha descrença, eles confirmaram que os dois povos não se dão muito bem, mesmo. Não se gostam. Mas são do mesmo lugar, mesmo continente, sofreram os mesmos abusos históricos…deviam se unir nessas horas. O argentino que me disse isso, o disse com lágrimas nos olhos. Pensei que louco seria, se fosse SEMPRE assim.

Ao terminar o jogo, dei um tchau geral para a argentinada, que de 5 em 5 minutos, durante a partida, dava tapas nos meus ombros, me abraçava e cantava comigo. Eles protestaram, e como viram que não havia jeito, eu realmente devia ir, se despediram da melhor forma que podiam: cantaram a mesma música provocativa. Era uma provocação, mas era também a forma de me dizerem, o quanto ficaram felizes de me conhecer. Quis cantar Adiós Muchachos para eles de volta, para agradecer, mas sabe como é…tango de Gardel…ainda existe a disputa de onde ele nasceu, se no Uruguai ou na Argentina…então, achei melhor não quebrar a mágica do momento.

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Fui me despedir do argentino que havia me dito sobre torcer para quem tem as mesmas cicatrizes que você. Ofereci minha mão para um cordial aperto. Ele recusou e disse as seguintes palavras: “Meus amigos, eu abraço!” E me deu um apertado e demorado abraço. Num desconhecido. E me senti envolvido por aquela efêmera amizade. Parecia que uma maçã estava em minha garganta, pronta para sair, tamanha a emoção que senti. Ele deu 2 tapinhas em meu rosto e me disse: “Nos encontramos na final e que vença o melhor!” E pensei que louco seria, se NUNCA MAIS precisássemos ser rivais.

Ao sair dali, encontrei um grupo sui generis: um grupo de cristãos hippies. Sentados no chão, eles cantavam hinos, ao som de um violão, carregando suas mochilas de couro, calçando suas sandálias…e então os argentinos apareceram de novo. E fizeram uma roda em volta do grupo, e começaram a bater palmas. O grupo de cristãos levantou e puxou os argentinos para a dança. Folhetos foram distribuídos, mas desconfio que NUNCA esses folhetos fariam mais efeito, que os abraços e a dança e a música…que a irmandade…e pensei que louco seria se o CÉU fosse assim…e percebi que ali…ali naquele momento efêmero e mágico, eu ESTAVA no Céu. E entendi que era assim que o Céu seria. Todos nós seríamos um só. Essa Copa do Mundo veio até mim, para me lembrar quem um dia seremos. Um dia…um dia seremos um…

Davison Silveira

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